Semana praticamente encerrada #44
Nem toda quarta, mas sempre uma quarta
Give peace a chance
Até outro dia a grande imprensa estava reclamando da polarização e tentando fabricar um candidato viável porque, segundo o único sujeito com alguma chance até agora, “o Brasil não aguenta mais o Lula”. Sim, que bom que tem o Tarcísio pra informar que estamos todos de saco cheio de um presidente que elegemos três vezes e é o favorito das pesquisas para 2026.
Talvez a imprensa tenha desistido de reclamar da polarização e aceitado que é isso mesmo que temos pra hoje, já que agora virou mural de recado de político de extrema direita repetindo a nova palavra da moda, pacificação — quem sabe numa estratégia para salvar o Bolsonaro que, preso, no mínimo representaria um embaraço na hora da escolha do herdeiro de seu capital político.
Mas você olha pela janela e não vê essa nação que precisa ser pacificada. Um país que assiste o remake de “Vale Tudo” sem quebrar nenhuma vitrine certamente está com a medicação em dia. Os únicos que estão precisando de paz são os próprios representantes da direita, que ficam o tempo todo tentando virar a mesa enquanto o resto de nós trabalha. É como se um incendiário abrisse uma reclamação na Defesa Civil porque estão rolando muitas queimadas na sua área.
Mas se você quiser levar a pacificação para um lugar em constante turbulência, que tal começar pela minha conta bancária? Assine a versão paga dessa newsletter (igual à gratuita mas com grife) por 10 reais mensais ou 100 anuais; compre meu livro ou me faça um pix: arnaldo.branco@gmail.com. Prometo não interditar os trabalhos do Congresso pra te obrigar a fazer esse gesto de caridade.
Nesse número falo da impunidade (e da imaturidade) da direita; dou aquele like em “Oeste outra vez” e mando um thumb down pra “Eddington". Isso, e mais cartuns. Paz. ✌🏽
Feito gente grande
“Progressistas se acham indignos dos seus bens, conservadores acreditam que merecem tudo que roubaram” - Mort Sahl
Vocês devem lembrar do carnaval que fizeram quando a Dilma tentou nomear o Lula para a Casa Civil, no que foi visto como uma manobra para blindá-lo contra as investigações tendenciosas — hoje podemos afirmar com provas e convicção — da Lava Jato. Lembro da cara sofrida do William Bonner lendo a transcrição do grampo telefônico mais anódino já exibido em um telejornal — era como se estivesse sendo obrigado a recitar uma página das confissões sexuais da própria mãe.
Pensei nesse episódio semana passada, quando vimos novamente a direita sequestrar o Congresso pra fazer selfie e pedir impunidade, e com isso não despertando nem um décimo da indignação que sobrou no caso da nomeação do Lula. Toda vez que o bolsonarismo e o Centrão fazem das suas a reação geral é um dar de ombros nos editoriais, que dizem em resumo: “fazer o que, eles são assim".
E olha que no mesmo dia em que votaram a anistia e a PEC da bandidagem os caras fizeram uma operação que representa de fato o que acusaram a Dilma de tentar em 2016: botaram o Eduardo Bolsonaro na liderança da minoria da Câmara dos Deputados — sim, o fujão que já estourou o prazo da sua licença e que não só está respondendo a vários processos como está nos Estados Unidos cavando sanções contra o Brasil. Esse absurdo passou batido pelos comentaristas políticos como se fosse uma substituição burocrática em uma partida pra cumprir tabela.
A diferença de tratamento é flagrante. De Lula cobram postura de estadista mesmo quando ele já está se comportando como tal: só esse ano já foi chamado de intransigente por não se humilhar para o Trump na questão das tarifas e de intolerante quando denunciou o genocídio na Palestina — duas exigências que não envelheceram muito bem depois do presidente norteamericano trair todo mundo e do estado palestino ganhar mais uma série de fiadores.
Já o bolsonarismo pode apagar a luz no estádio e furar a bola e mesmo assim o editorial do Estadão vai conseguir um jeito de dizer que tudo faz parte da disputa democrática.
Outro dia uma influencer do TikTok publicou um vídeo excelente definindo o fascismo como “uma birra de criança disfarçada de ideologia” , e não tenho palavras melhores pra traduzir o que é a nossa direita, que se continuar sendo mimada desse jeito nunca vai se comportar feito gente grande.
Arnaldo's crapbook
Meu caderninho de rascunho
Nessa seção falo de um filme (ou série, ou livro etc) que caiu bem e de outro filme (ou série, ou livro etc) que não bateu. Nem sempre vou tratar dos últimos lançamentos, principalmente no caso das coisas de que não gosto — porque o desagrado, assim como o Bolsonaro, precisa ser devidamente processado.
Sem faz-de-conta
Bateu: “Oeste outra vez”(2024)
Faroestes eram um pouco como o Universo Marvel do seu tempo. Tinham as franquias (Pat Garrett e Billy the kid, Wyatt Earp e Doc Holliday, Jesse James), as sequências (Tom Mix, Django, Trinity) e a mentirada (todos os westerns onde um pistoleiro desarmava outro com um tiro ou acertava um alvo móvel enquanto cavalgava). Eram menos sobre a história da conquista do oeste e mais um cenário onde desfilavam seres míticos numa fantasia sobre o mal, o bem e a masculinidade.
Tanto que assim que a fantasia acabou — nos anos 60 da contracultura, quando surgiram vários filmes contestando o mito, abordando o massacre indígena e mostrando o homem branco como vilão — o gênero virou subgênero. Sem o faz-de-conta o brinquedo perdeu a graça pros gringos.
Aqui nunca tivemos muito uso pra fantasia, mesmo tendo em comum o mesmo passado de ocupação selvagem do território, e sempre tratamos o estilo pelo viés da paródia (como em “Matar ou correr”, chanchada da Atlântida) ou através da desconstrução (“Deus e o diabo na terra do sol”, “Bacurau”). E é bem difícil romantizar a conquista do interior brasileiro enquanto o massacre dos povos originários segue ocorrendo.
O diretor e roteirista Erico Rassi fez a releitura possível do gênero. Em “Oeste outra vez” o Monument Valley é o sertão goiano e a masculinidade é tratada sem filtro, quase como um transtorno mental que faz perder os homens que, abandonados por mulheres fartas de lidar com seu comportamento tóxico, se entregam à violência — que também é desmitificada, com trocas de tiros desajeitadas e súbitas, sem a preparação através do suspense.
Além de atentarem contra a vida um do outro, os personagens de Ângelo Antônio e Babu Santana contratam pistoleiros de aluguel tão patéticos e solitários quanto eles, e é nas interações desses homens embrutecidos que vemos o pouco de humanidade que lhes sobrou, numa irmandade mal costurada por códigos de honra sem sentido.
Com seu título que remete a “Era um vez no Oeste”, que alude ao próprio ato de contar uma história (num filme que pisava de propósito na tradição), “Oeste outra vez” insinua uma narrativa tragicômica que se repete incessantemente no interior — do país e dos homens.
Teoria da ferradura em forma de filme
Não bateu: “Eddington” (2025)
O novo filme de Ari Ester — um entusiasta da perturbação mental que por acaso decidiu ser diretor de cinema — causa aflição como os outros da sua obra, mas dessa vez de um jeito diferente. E pra mim não bateu legal não.
“Eddington” é sobre Joe Cross (Joaquin Phoenix), o xerife da cidadezinha do título, um reaça asmático que usa essa condição como motivo para boicotar o uso de máscaras durante a pandemia de Covid-19. Sim, estamos de volta a 2020 e às nada saudosas normas de isolamento social que dividiram a sociedade entre pessoas que acreditam na ciência e negacionistas com tendências suicidas.
Cross está angustiado por vários motivos: sua esposa Louise (Emma Stone) não gosta dele apesar de toda sua devoção; sua sogra endoidecida por teorias da conspiração está morando com eles — e o sujeito que mais odeia no mundo, o prefeito Ted Garcia (Pedro Pascal), enche seu saco para botar a máscara todas as vezes em que se esbarram. Garcia também está fazendo campanha a favor da instalação de um datacenter que deve trazer investimentos para a cidade em troca de suas reservas de água e, depois descobriremos, de sua alma.
Para piorar o assassinato de George Floyd ainda está reverberando nas ruas dos EUA e inspirando protestos até em Eddington, e tal estado de coisas impele esse homem com claras inclinações psicopatas a se candidatar a prefeito. A partir daí a situação escala para um festival de violência provocada por sua rixa com Garcia e por um grupo Antifa — ou que se faz passar por Antifa — que lembra uma daquelas fantasias da classe média apavorada sobre a possibilidade do “morro descer”, onde Aster força a mão em uma parábola sobre as divisões da sociedade norteamericana. E aí é que o negócio vai ladeira abaixo.
O problema de usar o recurso do microcosmo para abordar grande temas é que às vezes eles diminuem junto. Quando você reduz os ativistas do Black Lives Matter aos brancos com consciência culpada de uma cidadezinha onde o único negro é um policial que não tem opinião sobre o assunto — mas é constantemente perturbado pelos militantes (todos moleques recém-saídos da puberdade) pra assumir posição — você está conscientemente escolhendo o viés do ridículo para abordar o movimento, o que não sei se é a opção adequada no contexto desse comeback da galera da supremacia branca.
O mesmo acontece com a visão da pandemia. As pessoas que respeitaram as medidas sanitárias aparecem sob a mesma luz crítica no retrato da loucura daqueles dias, como se sua insistência com a observação das regras fosse tão demente quanto obstinação dos negacionistas em botar suas vidas e a dos outros em risco.
Mas nem foi só o papo torto do filme que me deixou bolado. Várias coisas me impediram de entrar na onda, como as cenas mal coreografadas de manifestações que parecem ensaiadas para um esquete de humorístico, a atuação sonâmbula do Joaquin Phoenix e a falta de sutileza da alegoria.
Acostumado a trabalhar os medos do cidadão médio estadunidense, aqui o diretor parece se botar no lugar dele.









Talvez a grande imprensa não seja crítica à extrema-direita porque não é afeita à autocrítica.
Eu é que não aguento mais certos veículos querendo empurrar o Tarcísio como um político moderado... basta ver o que ele fez com o bendito do martelinho na abertura da Bovespa... ali a moderação foi com Deus faz tempo